sábado, 1 de janeiro de 2011

Mago: crônica

Joana virou rápido a cabeça para trás e, com terror no coração, viu que o tecnocrata diminuía a distância entre os dois a cada passo. Já havia corrido muito, tentando despistar seu perseguidor passando por ruas pequenas e vielas escuras que conhecia tão bem, mas o homem simplesmente corria demais e estava sempre logo atrás dela. Agora estava exausta, pálida, cada músculo mal aguentando a próxima contração e sem idéia do que fazer. Estava perto da sede da cabala, mas não podia ir até lá com ele em seu encalço. Começava a se entregar ao desespero.
Virando uma esquina, porém, seu cérebro raciocinou uma nova esperança: alguns metros à frente, havia um hidrante. Só precisava aguentar a corrida um pouco mais.
- Está bem enferrujado, mas a chance dele estourar ainda é muito pequena. - ela pensou.
Logo atrás, ela ouviu uma arma sendo engatilhada. Não podia mais esperar: a ferrugem não suportou mais a pressão da água e a tampa do hidrante foi arremessada na direção de Joana com uma velocidade assustadora, mas ela viu o pedaço de metal aproximar-se lentamente, acompanhado de milhões de gotas d'água flutuando leves no ar. Pisou, então, sobre a tampa, o que lhe deu impulso para um grande salto. Pensou que podia respirar aliviada quando, ainda no ar, sentiu algo perfurando suas costas. Olhando para baixo, viu uma bala e vários respingos de sangue saindo preguiçosamente de sua barriga. Pouco depois, o som do disparo propagou-se devagar pelo ar, grave, retumbante, quase eterno e ferindo os tímpanos de Joana.
Ela se esforçou para manter sua mente concentrada, mas a dor e o susto fizeram o mundo voltar a sua velocidade normal. A dor dentro de si a impediu de amortecer bem a queda, e ela torceu o pé ao atingir o chão, desajeitada. Caída, parte da água do hidrante jorrando sobre ela, olhou para trás e viu que seu plano havia dado certo: a tampa do hidrante ricocheteou no chão quando foi pisada e acertou o queixo do tecnocrata. Sua mandíbula estava despedaçada e ele jazia inconsciente no chão.
Joana tentou sorrir, mas não conseguiu: sentiu o dano em suas entranhas e a vista embaçou. Levantou-se trêmula, a mão sobre o ferimento tentando estancar o sangue, mas ela sabia que não podia impedir que ele continuasse inundando dentro de seu corpo. Tinha uns 2 km de caminhada até a sede da cabala, e enquanto mancava até lá pensava se seria mais provável morrer de hemorragia ou infecção...

Algum dia eu espero escrever o que houve a Joana e porque ela estava sendo perseguida.