sexta-feira, 10 de junho de 2011

Mas eu me mordo de ciúme...




"Cara, quando eu penso sobre esse negócio de ciúmes, eu acho que a gente só sente isso porque vê nas novelas da Globo."
Tiago Pinheiro

Esse foi, com certeza, um dos comentários mais espirituosos que eu já ouvi sobre o assunto. Aproveitando a data em que os casais ficam "inexplicavelmente" mais românticos e menos propensos a discussões, vamos dissecar o tema.

Por que sentimos ciúmes? Não vou eximir a Globo de toda a culpa, mas ela está muito longe de ser a principal culpada. O fato é que a regra geral na Natureza (e lembre que você não pode se ver à parte dela) é que a parte feminina leva a pior na hora de perpetuar a espécie. Cabe à fêmea a função de alimentar a geração que virá, enquanto ela não pode fazer isso por si, seja por alimento armazenado nos ovos onde a cria nascerá, seja durante a gestação e amamentação (como é o caso dos mamíferos). Enfim, procriar é muito mais dispendioso para a fêmea, pois ela precisa ceder nutrientes de seu corpo para os filhos. Já o macho... bem, o macho só contribui com os gametas mesmo (e se diverte muito com isso ^^)

Blábláblá, um monte de papo de biólogo. O que isso tem a ver com ciúmes?

Tudo! Pense comigo: todos somos movidos pelo instinto da procriação, a evolução moldou toda forma de vida assim. E já que o macho não tem nada a perder procriando, o instinto o leva a querer sair espalhando seus gametas por aí, a torto e a direito, é de quem quiser! Por outro lado, para a fêmea procriar deve ser um investimento cuidadoso, pois ela tem mais a perder. Pensando no sucesso da prole, ela não vai querer ter filhotes com qualquer um; ela vai querer o mais forte, que caça mais, que corre mais. Enfim, a fêmea escolhe o macho que gerará os melhores filhos. Ou ainda, vai querer que o macho ajude a cuidar deles.

Aí foi que começou a baldear tudo!

Pois é comum, em muitas espécies, o macho ajudar a cuidar da prole, protegendo e alimentando. Mas, geralmente o casal se separa após os filhos "deixarem o ninho". O problema mesmo foi quando a humanidade começou a se organizar em uma sociedade monogâmica. A mulher, após ter o filho do homem que ela escolheu como o melhor, não vai querer que ele saia tendo filhos com qualquer outra que apareça (fazendo-o contrariar um instinto fortíssimo); ela precisa dele ali para cuidar da sua prole. E o homem, já que vai ter que fazer isso, tem que garantir que ele tá cuidando é dos seus filhos mesmo, e não do Raimundão.

E voilá! Temos o ciúme, puramente instintivo e voltado para o sucesso da prole.

Mas pare para pensar: quanto tempo dos relacionamentos hoje é dedicado à procriação? A maioria das pessoas começa a namorar antes dos 15 anos, e só vai pensar em ter filhos lá pelos 35. A principal função de nossos relacionamentos passou a ser simplesmente a busca de felicidade e alegria, estar com quem se gosta. Mas onde o ciúme se encaixa nisso? Com sua fortíssima base biológica, ele não pode ser ignorado; ele assumiu, então, um aspecto cultural e comportamental. Ninguém quer que seu parceiro(a) se envolva com outra pessoa por isso ser um estigma social e um baque na auto-estima. Aí é que a Globo (e outros gigantes da comunicação) tem sua parcela de culpa, reforçando esteriótipos, construindo comportamentos e alienando a população. Ora, eu já vi casos de gente dizer que sentiu ciúmes, diante de situações banais, apenas porque achou que DEVERIA sentir.

Mas já passa da hora de refletir se esse comportamento faz sentido!

Em qualquer nível, do mais grave ao mais leve, o ciúme é um sentimento de posse. Você acha que seu parceiro não tem o direito de fazer tal ou qual coisa porque ele... ora, ele é o SEU parceiro! Mas, céus, ninguém é de ninguém! Se alguém fica com você é porque essa pessoa é feliz com você, gosta da sua companhia e atenção. Você deveria se sentir honrado com isso, e não se sentir dono da pessoa.

O que eu vou dizer talvez seja incompreensível pra muitas pessoas, mas fazer o quê?

Seu/sua namorado(a) não é seu/sua. Seu/sua esposo(a) não é seu/sua. Ele(a) é uma pessoa livre pra fazer o que quiser, e que apenas se sente bem do seu lado e quer ser feliz com você. Mas isso não é motivo pra ela não poder se sentir bem na companhia de outras pessoas, fazendo o que ela tiver vontade de fazer. Afinal, se você a ama, quer muito sua felicidade, não? Então, deixe-a ser feliz, sair com quem quiser, abraçar quem quiser, beijar quem quiser, fazer o que quiser. Isso nunca vai querer dizer que ela lhe ama menos. Como bem disse um cara que não me lembro agora quem foi (acho que foi o Bob Marley): "As coisas que amo, deixo-as livres. Se não voltarem, é porque nunca as conquistei."


"E se ela descobrir que é mais feliz com outro alguém do que comigo?" E você vai negar a quem você ama o direito de ser feliz?! É muito egoísmo, não?

É claro que não é nada fácil lutar contra um comportamento já concretado na mentalidade coletiva, e baseado em milhões de anos de evolução. É realmente nadar contra a corrente. É muito mais cômodo aceitar as coisas como são, e acreditar na máxima "um pouquinho de ciúme é bom pro relacionamento". Mas é muito melhor saber que você pode fazer tudo que se tem vontade sem ter que ficar escondendo de quem você ama, e poder confiar que aquela pessoa nunca vai ter medo de lhe contar nada. É preciso amadurecer, sim, e muito. Superar nosso orgulho, nossos medos, para enfim abraçar uma relação em que haja apenas a sinceridade, a busca pela felicidade comum e, claro, o amor, puro e intenso.

Esse foi meu presente de Dia dos Namorados para todos vocês. Espero que ajude a tornar suas relações o que devem ser: fonte apenas de alegria.
"Não há nenhum ciúme no amor; o ciúme é só orgulho e egoísmo"
Severo Catalina del Amo